Como a Guerra na Ucrânia afeta a precificação dos combustíveis

15 de Março de 2022

 

Rússia é o segundo maior exportador mundial de combustíveis e o conflito com a Ucrânia já obrigou a Petrobras a aumentar os preços

Na última quinta-feira (10), filas de carros se formaram diante dos postos de gasolina para abastecer, depois que a Petrobras anunciou o reajuste nos combustíveis. O preço médio de venda da gasolina da Petrobras para as distribuidoras subiu 18,8%, passando de R$ 3,25 para R$ 3,86 por litro, depois de 57 dias sem aumento — e de apresentar queda em dezembro. Já o diesel teve alta de 24,9%, passando de R$ 3,61 por litro para R$ 4,51. 

Na bomba, o preço médio anterior era de R$ 6,85 para a gasolina e R$ 5,66 para o diesel comum. Entre os dias 12 e 13 de março, logo após o reajuste, a média para a gasolina e o diesel ficou entre R$ 7,19 e R$ 6,47, respectivamente. Os dados são da base de dados da Aprix, que reúne informações de  mais de 14.000 postos em todo o Brasil e coleta mais de 55.000 preços no varejo diariamente.

Na quarta-feira, Karen Sabino, administradora do Posto Martinópolis (Martinópolis/SP), já esperava que o preço fosse subir e procurou manter os estoques cheios.  “O movimento foi bem alto no dia do aumento, e tem se mantido alto devido ao receio da falta de combustiveis”, relata. 

Embora o reajuste prejudique o consumidor e o varejista, o químico industrial e especialista em petróleo, gás e energia da Petrobras Marcelo Gauto avalia que o aumento gerou alívio no mercado brasileiro, pois normalizou a janela para a importação, apesar da angústia para o consumidor. Com a defasagem de preços, a importação é reduzida, o que leva à redução dos estoques que, em situações extremas, culmina na falta de combustíveis.  Agora, a perspectiva é de que diminua o estresse sobre a companhia para que não falte combustível. “O mercado vê isso como uma independência da estatal em relação ao governo federal”.

Ainda assim,  a instabilidade gerada a partir da invasão da Ucrânia pela Rússia, que completa 20 dias, pode representar um dos maiores picos de preço do petróleo da história. Na manhã de hoje, o preço bruto do petróleo Brent  estava em US$ 105,97.  “Os choques anteriores foram por cortes propositais de produção para elevar preço. Hoje talvez o corte seja por embargo, vai faltar óleo no mercado”, explica Gauto. Um dos maiores choques, na década de 1950, elevou o preço do barril a um valor corrigido de US$ 200,00.

 

Por que a Guerra entre Rússia e Ucrânia interfere no preço dos combustíveis?

Ainda que as exportações de petróleo brasileiro correspondam a 32% da produção nacional entre 2005-2021, o país ainda depende de importações de produtos como diesel, gasolina e GLP, como explica Marcelo Gauto: “No mercado brasileiro, em torno de 20% a 25% dos nossos derivados foram importados, na média dos últimos cinco anos, especialmente o diesel.” Rússia e Arábia Saudita são os principais exportadores de petróleo a nível mundial, o que significa que conflitos nessas regiões repercutem no setor de combustíveis no resto do mundo. “Qualquer evento novo mais crítico no conflito da Rússia com a Ucrânia vai desencadear preços mais altos, e vai pressionar de novo aqui dentro”, avalia o químico.

 

“Talvez o maior estresse da história do petróleo seja esse que estamos vivendo”

— Marcelo Gauto

 

De acordo com a política de preços da Petrobras, em vigor desde 2016, o preço dos combustíveis no país é reajustado conforme o mercado internacional. Conhecida como Preço de Paridade de Importação (PPI),  leva em conta o custo total de importação do petróleo para o Brasil na hora de aplicar o reajuste nas refinarias.

Outro indicador importante para a precificação é a arbitragem: a diferença entre o preço nacional e o preço de importação (PPI). Ela indica a defasagem do preço do produto nacional com relação ao mercado internacional. Dessa forma, quanto maior a arbitragem, maior é a chance de que haja reajuste no preço dos combustíveis.

 PPI Valores de combustíveis mercado nacional e internacional Aprix março 2022

Evolução do preço do diesel e da gasolina no mercado interno e externo entre 03 de janeiro de 2022 e 14 de março de 2022. Fonte: Aprix Intelligence

 

O gráfico acima mostra o quanto os preços brasileiros estavam defasados em comparação com os combustíveis no mercado externo desde a invasão da Ucrânia pela Rússia, em 23 de fevereiro.

 

Diante da incerteza, monitore a arbitragem

pandemia do coronavírus já nos ensinou a lidar com o desafio da precificação em tempos instáveis. No caso do conflito com a Ucrânia, eventuais sanções econômicas à Rússia podem colocar em risco a distribuição mundial de petróleo — o maior país do mundo é o terceiro maior produtor de petróleo, atrás de Estados Unidos e Arábia Saudita. Soma-se à questão do petróleo a desvalorização do real em comparação com o dólar. Na última segunda-feira (14), o dólar comercial fechou a R$ 5,12.

Para reduzir a incerteza na hora da precificação, é importante que os revendedores estejam atentos a indicadores como o PPI e a arbitragem. O Painel Gratuito de Arbitragem da Aprix mostrou que, no dia 10, antes do reajuste nos preços, a diferença de arbitragem era de -R$ 1,32, no total.

Karen Sabino, usuária da plataforma da Aprix no Posto Martinópolis, explica que  o painel de arbitragem auxiliou na decisão da precificação. “A plataforma já indicava que havia uma defasagem de preços, e quando tem um aumento tão significativo a precificação fica um pouco mais difícil, pois não sabemos realmente o quanto será repassado pela distribuidora”, comenta.

 Valores de combustíveis média nacional Aprix março 2022

Evolução da arbitragem do diesel e da gasolina no Brasil entre 03 de janeiro de 2022 e 14 de março de 2022. Fonte: Aprix Intelligence

 

No gráfico acima, quanto mais próximo do topo, menor é a variação do preço do combustível nacional com o PPI. Em 8 de março, a arbitragem da gasolina atingiu o recorde histórico de -R$1,55, enquanto o diesel esteve R$2,28 abaixo do preço esperado.

 

Painel de Arbitragem Aprix Pricing: PPI Brent WTI ESALQ e outras informações do setor de combustíveis, atualizadas em tempo real em um painel intuitivo e gratuito

 

Desequilíbrio no mercado provoca mudança na legislação 

No mesmo dia em que a Petrobras anunciou o reajuste, foi aprovado e sancionado pelo presidente Jair Bolsonaro o Projeto de Lei (PL) 1.472/2021, que altera a forma de cálculo do preço dos combustíveis, além de criar um fundo de Estabilização. A partir do projeto, deverá ser cobrada uma alíquota com valor fixo em toda a federação. 

Já a Conta de Estabilização  funcionará como um mecanismo de amortecimento contra flutuações do preço do petróleo no mercado internacional. O objetivo é reduzir o valor dos combustíveis nos postos e evitar a oscilação constante de preços para o consumidor. Entre as medidas, foi aprovada a desoneração do PIS/Cofins no diesel, subsídio que será arcado pelo governo federal. 

Em nota, a Associação Brasileira dos Importadores de Combustíveis comemorou a medida. “Além da possibilidade de redução dos custos dos combustíveis, trará grande contribuição para redução da sonegação, simplificará os processos para apuração e pagamentos dos tributos, bem como permitirá a otimização dos fluxos logísticos na distribuição e comercialização dos combustíveis”, diz o documento. O pacote de apoio tributário era uma demanda antiga do setor e tem o potencial de beneficiar toda a cadeia, desde a importação até a venda.

 

 

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